23/01/2015

Dos amores

Costumo dizer que não sou romântica, que não me emociono com as histórias de amor. Não gosto de ser lamechas, de deixar-me levar pelas emoções que toldam os pensamentos. Saio à minha querida mãe. Com ela, aprendi a ser sempre muito prática e objectiva, certeira naquilo que queria, teimosa e muito determinada, inclusive no amor. E, duma forma muito geral, não gosto de perder tempo com coisas do coração.

A verdade é que não é fácil falar de amor. Estou aqui há duas horas a tentar escrever uma linha e as palavras fogem-me dos dedos, sem as conseguir agarrar. Tudo o que quero dizer é demasiado pequeno para aquilo que sinto quando falo dessa coragem que alberga todas as outras, quando falo do amor. Por isso, hoje, conto-vos um pouco das minhas histórias de amor.

Com 4 anos, disse aos meus pais que me ia casar com o meu vizinho. Tinha decidido da noite para o dia, estava marcado e queria que fosse muito rápido, como a urgência daquilo que sentia. Nessa altura, não fazia ideia que aquilo era apenas uma paixão passageira e que provavelmente ia esquecer o meu vizinho tão rapidamente como tinha decidido casar. Já nessa altura, o amor não era exclusivo das pessoas crescidas, mas simples como a linguagem do coração.

Na adolescência, apaixonei-me quase todos os dias. Aliás, com 13 anos, apaixonei-me tão perdidamente que durante anos aquele foi o único rapaz que vi nos meus sonhos. O Zé Mário tinha aquele gesto especial, o olhar que me tremia as pernas, o espírito livre que me conquistava os suspiros. No último dia de escola, depois de me dar a mão e dizer que queria muito estar comigo nas férias, eu fiquei dias sem abrir a mão, com medo de deixar escapar aquela sensação. Com ele, comecei a ouvir Janis Joplin e Nina Simone de olhos fechados nas tardes de quinta-feira, onde ele, um ateu convicto, me segredava que Deus tinha de existir porque me tinha dado uma voz assim. Contagiou-me com as suas ideias políticas e, com 15 anos, sabia que o nosso amor ia vencer o Mundo todo.

Mais tarde, conheci o Luís, o miúdo do cabelo de todas as cores e cujo o sorriso me indicava que ali me perderia. E ali me perdi. Foi com ele que andei de mota (e caí), que aprendi a rir-me muito alto e até chorar, que conheci Oeiras e que tive vontade de me mudar para Lisboa. A loucura que ele tinha foi a alegria que ganhei para mim. Tinha aquele perfume que enchia cada detalhe da minha lembrança, o mesmo que, em segredo, comprei para perfumar a minha almofada e perdurar o cheiro da camisola que ele me deixava durante a semana que estávamos separados. Durante muito tempo, tive a certeza que, um dia, íamos ser felizes para sempre. Por isso mesmo, cada vez que me cruzava com ele, apaixonava-me de novo.

Na faculdade, apaixonei-me pelo Miguel. Apesar de só termos consciência de que estávamos juntos depois de 4 meses, foi a primeira vez que me vi numa relação a sério, em que podia dormir fora de casa dos meus pais. Como ele estudava no Porto, só estava com ele à semana e faltava a todas as aulas para aproveitar cada segundo que estávamos juntos. Chumbei um ano na faculdade por causa do meu amor pelo Miguel. Perdi-me completamente com ele, mas não éramos, de todo, românticos. Não andávamos de mãos dadas na rua e, apesar dos amigos dele serem meus amigos, ele não ficou com nenhum dos meus. Mas foi a primeira vez que falei dos meus segredos com alguém e foi a primeira vez que soube que aquilo ia ser passageiro, por isso sabia que tinha aproveitar cada momento como se fosse o último. Foi uma relação tão intensa como distante, tão boa como imensamente doentia.

Não foram muitos os que se seguiram. Tive momentos em que me esqueci que o amor não é a paixão, mas aquilo que construímos depois dela. Tive momentos em que me apaixonei tanto que me esqueci de mim mesma. Com o tempo, apercebi-me que cada pessoa que conhecemos leva um pouco de nós mesmos e que, por isso mesmo, é importante que nos amemos profundamente, que saibamos quem somos, que nunca nos esqueçamos desse nosso lugar. Porque só assim somos capazes de amar a pessoa que temos ao nosso lado.

E depois conheci o Pedro. A música não parou, o mundo não deixou de rodar, nem o tempo gelou naquele momento. Mais do que isso, quando o conheci foi como se eu me tivesse reconhecido a mim mesma, como se me tivesse encontrado. Percebi que o amor é tão simples como o beijo de boa noite, o carinho de sofá enquanto vemos um filme, um passeio com a nossa Badu, as férias que planeamos ininterruptamente. O amor é o único abraço que me acalma totalmente e onde sou capaz de chorar sem medos, mas que me dá todas as forças. E, nos momentos em que ele não percebe que o olho, o amor é a certeza que sou mais completa com o meu Pedro. Porque compreendi que, acima de tudo, o amor é uma escolha de todos os dias, uma decisão de viver a vida como um conto de fadas e de ser feliz para sempre.

Costumo dizer que não sou romântica, que não me emociono com as histórias de amor. Não gosto de ser lamechas, de deixar-me levar pelas emoções que toldam os pensamentos ou de perder tempo com as coisas do coração. Porque, para mim, aquilo que o coração sente sabe sempre o seu lugar e não precisa de palavras para o explicar. Para mim, o amor é simples.

P.S. este é um post especial e dedicado à Marisa Barroca, que me convidou a falar de amor. Em breve conto-vos mais sobre a Marisa e o seu Mercado dos Santos. :)

6 comentários:

  1. Mesmo ontem comentava isso com uma amiga. Falávamos que o amor é aquilo que fica alem da paixão, que nao nos faz perder o fôlego mas tem outras coisas, muito mais reais. Constrói-se todos os dias.

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  2. Tão lindo. Lindos testemunhos, Raquel! Gostei de todos, desde quando eras mais novinha até hoje! O amor é mesmo a coisa mais bonita, e sim, é simples!
    Continua a encantar os teus leitores com as tuas palavras! :)

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  3. deixaste-me com lágrimas presas entre a garganta e o coração. ainda não conheço esse amor simples, mas continuo a acreditar que ele existe por aí, e que um dia me agarrará. beijinhos, raquel, fazes-me sempre tão bem.*

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    1. Ele existe, prometo. E obrigada pelas palavras que me fizeram tão bem! :)

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