19/02/2015

[desculpas para escrever] mãos

Sempre foi o que mais me chamou a atenção nas pessoas: as mãos. As histórias que carregam, os segredos que escondem, as marcas e os calos que permanecem como cicatrizes do tempo que passou.

As mãos como sinónimos de acção, que justificam meios e concretizam fins. O nosso meio de contacto com o mundo táctil que nos rodeia, com as texturas que nos fazem sentir confortáveis, aconchegados, resguardados, salvos. As mãos que sossegam, que acolhem, que afastam e que afugentam. As mãos que apertam, que suportam, que protegem, que agarram e que seguram.

É também a primeira coisa que recordo sempre que me lembro de alguém. Reconheço todas as caras quando as vejo na rua, mas, quando tento recordá-las, o tempo apaga as linhas da memória. É como se a areia passasse pelas feições daqueles que lembro e só consigo recuperar um olhar ou as mãos de quem me é especial. E, em tom de segredo, não suporto ver feridas ou arranhões nas mãos sem me arrepiar até à espinha (aconteceu agora) e fico até um bocadinho mal disposta. Sim, sou estranha.

As minhas mãos são como as do meu pai. São "sapudinhas", como a minha mãe sempre me dizia. Quando era miúda, confesso que tinha alguma vergonha das minhas mãos gordinhas e tão pouco de menina. Queria ser como as outras meninas e queria aprender piano com a minha tia bisavó, a Titi Matilde que falava muito bem francês. Mas não tenho mãos de pianista, compridas e esguidas, tenho mãos "sapudinhas" de bebé.

Tinha 4 anos quando fui operada ao apêndice de urgência e pensei que tinha feito uma asneira enorme ao roer as unhas às escondidas. Não foi isso que o causou, mas nunca mais roí as unhas.

Algures durante a adolescência, parti o meu dedo anelar esquerdo numa brincadeira com amigos. Naquela altura estava a aprender a tocar guitarra clássica e, graças a isso, aprendi a importância daquele dedo que tanto me dói ainda quando tento voltar a fazer música. Nunca mais consegui tocar guitarra (ou tentar tocar piano) com a mão esquerda.

Gosto muito de anéis, mas não gosto muito das minhas mãos "sapudinhas" com eles, por isso sempre fugi a sete pés. Durante muitos anos, usei apenas um, igual ao da minha amiga-irmã e que ambas temos desde os nossos 12 anos, um símbolo da nossa amizade. Ainda assim,  quando me decidi casar sabia que ia ser muito difícil de arranjar uma aliança para a vida. Sabia o peso que isso teria para mim, pois nunca quero mostrar as mãos. Escolhi uma aliança muito diferente daquelas que se usam e tenho muito orgulho de usá-la no meu dedo estranho, partido na adolescência e que não me deixa fazer música sem me doer muito.


No entanto, nunca tinha percebido o quanto as minhas mãos eram importantes para a visão que tenho de mim mesma, até ao dia em que a doença que me invade os ossos me impediu de escrever. Tinha os dedos tão inchados que tive de tirar o anel que tenho igual à minha amiga-irmã, anel esse que me deixou com uma cicatriz e um vazio maior que as palavras. Nesses dias, fiquei muito zangada com a doença que vive comigo e implorei-lhe que não me tirasse as minhas pessoas, o meu bem mais precioso.

Dias depois, voltou tudo ao normal, menos o meu dedo indicador esquerdo, que continua inchado e algo disforme. Olho para ele muitas vezes e lembro-me destas linhas da minha querida Carla, que escolheu um anel para embelezar o seu dedo também disforme. Olho para o meu dedo quando a minha médica mo aperta e diz com um sorriso "estou feliz! está melhor!". Olho para ele enquanto escrevo estas palavras e sei que hoje não me importo de ter os dedos sapudos. Porque eles representam a minha história.

P.S. Desculpem-me pela falta de inspiração desta semana. Têm sido uns dias muito atarefados, mas não queria deixar de vir aqui e fazer o meu desafio semanal, das desculpas para escrever. E para a semana falem-me dum professor (ou professora) vosso. :)

2 comentários:

  1. Raquel,
    Tem graça, que desde bem pequeno me lembro de ouvir essa expressão, "mãos sapudinhas". A minha mãe e a minha avó materna usavam-na para descrever as mãos da minha irmã. E que mãos mais ternurentas e vivas, as dela. Um termo é só um termo. E tem graça, a expressão antiga que define, com ternura, o outro.
    O piano, uma das minhas muitas vontades. E fragilidades. Nunca ousei tocar nem tocar-lhe. Só levemente. Não foi culpa das mãos, quero acreditar. Antes o respeito e a admiração.
    As mãos falam. E há quem fale de um jeito soberbo com as mãos.
    Beijos :)

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    1. Eu confesso que, tantos anos depois, decidi tocar piano, aprender o básico para me auxiliar na música que canto. E lembrei-me de todas as horas em que desejei ser pianista a sério. :)
      Acho que, que falo muito com as mãos. Às vezes faltam-me as palavras e faço os gestos. E prometo, já não tenho tanta vergonha das minhas mãos sapudinhas. :)

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