04/03/2015

[desculpas para escrever] a minha professora Alice

O meu coração batia tão forte que o ouvia na minha cabeça. Apertei a mão daquele que seguia ao meu lado como um muro de coragem e protecção. O corredor era comprido, frio e pálido, e todos os olhos seguiam-me, como se quisessem ver a raiz da minha alma. Ao fundo, ouvia-se o barulho das crianças no recreio. Mas eu só ouvia o meu coração a bater.

A sala da Alice ficava ao fundo do corredor, mesmo antes da porta de vidro que todos os dias desafiava as leis da física, com os encontrões normais da infância. Percorri aquele corredor sem nunca largar a mão do meu pai, com medo que me perdesse algures. Desde que tinha sido operada ao apêndice aos quatro anos que me tinham dado licença para chorar e desde essa altura que o fazia indiscriminadamente, seja onde fosse. No entanto, naquele dia tinha dito a mim mesma que não o ia fazer, porque não queria que o meu pai pensasse que estava a sofrer. Sabia que ia passar menos tempo em casa, mas também queria muito aprender outras coisas e conhecer mais amigos, além daquela que vivia em nossa casa.

Quando vi a Alice, tudo se acalmou no meu peito. Ela não era muito mais alta do que eu, mas exibia uma força que me segurou ali. Não sei quantos anos teria, mas era doce como uma avó. Tinha uma voz meiga e um sorriso que me tranquilizava sempre que eu achava que as coisas não iam correr bem. Era muito carinhosa e dava os melhores abraços, mas também era severa e exigente quando achava que nós não dávamos o nosso melhor. Ela queria sempre o melhor de nós e sabia que éramos capazes de chegar lá.

Não dava reguadas nos dedos, mas quando o António se portava mal, ela puxava-lhe as orelhas. Não precisava de gritar, nem de se levantar quando se zangava; bastava um olhar mais rígido. Mas tinha uma paciência quase inesgotável, raramente se chateava e, quando queria, enchia-nos de mimos. Mas era a professora mais orgulhosa dos seus alunos e, no quarto ano e quando nos despedimos dela, senti que parte de mim ficou ali, com a minha professora Alice.

Durante anos, ficávamos felizes quando víamos um aluno antigo que a ia visitar à nossa sala, porque era sinal que ela o havia marcado para sempre. Ela abria sempre os braços quando os via e contava-nos a história que os tinha trazido até ali, o que andavam a fazer e como se lembrava de cada um deles, com detalhes tão bonitos como a imaginação. Ficava sempre feliz e com o coração cheio com estas histórias, pois sabia que um dia seria eu a ir àquela sala e lembrar-me-ia dos meus dias. Quando estava na faculdade, decidi fazer isso mesmo e recebi um dos melhores abraços da minha vida, um que levarei sempre na minha memória. Nos seus braços, a Alice carregava o orgulho por todos nós.

Com a Alice, aprendi que as mulheres pequeninas são concentradas como os perfumes e que guardam segredos maiores do que muitas montanhas. Com ela, aprendi também que, se acreditar numa coisa com muita força, sou capaz de a concretizar. A Alice fazia-nos acreditar em magia e garantia-nos que só nós éramos responsáveis pela nossa felicidade. Dava-nos a certeza absoluta que a alegria vivia nas pequenas coisas, nos nossos sonhos. Com a sua doçura, esquecíamos as amarguras da vida e ultrapassávamos tudo.

Hoje, conto-vos um segredo, da minha primeira professora, a Alice. Hoje, ao lembrá-la, quase posso jurar: aquela Alice era a nossa Mary Poppins.

P.S. É verdade que chorei um bocadinho no meu primeiro dia de escola, como escrevi por aqui. Em minha defesa, eu era uma menina do papá e tive de deixar a minha amiga em casa. Mas passou rápido, prometo.

P.S. Para a semana estarei pelos EUA, mas quando voltar, vou contar-vos uma história sobre uma música que gosto muito. Façam o mesmo desse lado. :)

1 comentário:

  1. Raquel,
    Acredito, sinceramente, que os professores, os bons e disponíveis professores, fazem toda a diferença. No ano e na matéria que leccionam, mas ultrapassam as cadeiras da sala de aula, o quadro cheio de letras e número, assim como, o edifício. Quando chegam aos alunos, seja por que razão for, não mais os esquecemos. Mesmo que não tenhamos a felicidade de com eles voltar a cruzar.
    A minha primeira professora a sério, encontrei-a no final do ano passado. E tive direito a abraço forte e dois beijos de ternura.
    Aprender vale sempre a pena. Ainda mais, quando tão bem ensinado.
    Um beijo :)

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