14/05/2015

[San Francisco] sem papas na língua

Depois de uma manhã em Mission, passada mais a correr do que aquilo que gostaríamos de admitir, decidimos seguir caminho até ao bairro Castro e ainda rever alguns sítios que não tínhamos conseguido ver por falta de tempo.

Em nossa defesa, tínhamos os dias absolutamente contados e queríamos ver tudo o que podíamos durante este tempo, sem sentirmos que estávamos a apressar os detalhes que passavam por nós. Não gostamos de correr quando estamos em viagem, mas uma vez do outro lado do Mundo, sabíamos que nos íamos arrepender se deixássemos algumas coisas por ver. Por isso mesmo, decidimos continuar a pé de Mission até Castro, mesmo ali ao lado.



Conhecido como um dos bairros gays mais importantes dos EUA, Castro ganhou notoriedade depois do filme Milk, baseado na vida de Harvey Milk, um político e activista gay, que foi o primeiro homossexual a ser eleito para um cargo público na Califórnia. É o centro da comunidade gay de San Francisco, mas é também um marco conhecido mundialmente sob a bandeira das cores do arco-íris. Na Castro Street encontramos o Castro Theatre, uma viagem ao passado onde as reproduções se passam atrás de cortinas de veludo vermelho e o filme ainda é trocado manualmente.

Efervescente nos seus costumes, Castro é picante e provocante, refúgio das personagens mais eclécticas e sem barreiras, pois dizem e fazem exactamente aquilo que sentem. As ruas são pintadas das mesmas cores da bandeira gay e anda-se livremente, sem preconceitos. Infelizmente não apanhámos os senhores (com uma certa idade) que costumam sentar-se nus nos cafés ou mesmo na rua, mas é aqui que se sente a liberdade de expressão na sua maior forma. Assim, muitos são os locais que se referem a Castro como o coração de San Francisco.




[acompanhar a leitura com esta música]

Depois de almoçarmos no Harvey's, seguimos caminho até Haight-Ashbury, o bairro onde mergulhamos na história dos (loucos) anos 60. Para onde quer que olhemos, existe um símbolo da paz e cheiros a ervas naturais, relembrando o movimento hippie que dá cor a Haight-Ashbury. De certa forma, parece que voltámos atrás no tempo e que as pessoas que vemos, as lojas que passamos e as esquinas que encontramos continuam congeladas nessa época, na nostalgia dos vinis.




Enquanto caminhávamos, quase que ouvíamos ecos de Janis Joplin e Jefferson Airplane. Mais uma vez, vimos muitas cores distintas na boémia que continua a preencher as ruas, recheadas de lojas, cafés, restaurantes e livrarias, com venda de discos, roupas, artesanato e produtos vintage que afugentam o cheiro a mofo e limitam-se a recordar os bons velhos tempos. Aqui entrámos numa das livrarias mais bonitas que já estive, onde me perdi mais duma hora a ouvir boa música e a ver muitos livros que quis trazer logo para casa.



Já ao final da tarde, queríamos dar uma última volta pelos eléctricos e aproveitar o sol que veio ter connosco para se despedir de nós. A vontade era de subir novamente pelas ruas a pique, sorrir com todos os detalhes que tanto nos tinham apaixonado e descer até ao Embarcadero para um final de tarde junto à baía.




E foi assim que nos despedimos de San Francisco, já com muitas saudades das cores que esta cidade nos trouxe, onde a liberdade vive nas entrelinhas. Na luz bonita do final da tarde, ficámos com a certeza que, um dia, voltaremos. Porque nos sentimos em casa e porque voltaremos sempre aos sítios que nos acolheram, aos lugares onde fomos tão felizes.

Até breve, San Francisco. <3


P.S. Nós ficámos alojados num sítio mais que maravilhoso, no Edwardian Hotel, em plena Market Street, uma das artérias principais da cidade. Houve muita coisa que não vos contei, sobre os mendigos que invadiam grande parte da cidade e que nos fizeram confusão, principalmente nos primeiros dias. Mas não queria que isso vos deixasse de pé atrás quanto a esta cidade, bonita como só ela. Vive-se tudo intensamente, sente-se da mesma maneira que se vive. É tudo sem papas na língua, com muita cor, tão livremente que o coração se sente em casa imediatamente.
Por isso, se tiverem oportunidade de ir lá, não hesitem. É uma cidade de sonho, onde não me importaria de viver, de maneira alguma. E olhem que este não é um pensamento leviano, muito pelo contrário! Não troco o meu Porto por qualquer lugar. :)

10 comentários:

  1. A arquitectura deles é tão mas tão bonita, sem falar na publicidade! Não conhecia esse bairro mas por mim as passadeiras cá também podiam ser todas às cores! Porque é mais bonito :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. As passadeiras são a reflectir a bandeira arco-íris, do movimento LGBT :) E eu concordo que também podíamos ter umas assim por cá :)
      um beijinho, Lulu*

      Eliminar
  2. Adoro! Fotografias lindas, então a da ponte enche-me as medidas :)
    Também quero muito lá ir :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se soubesses como fiquei com vontade de voltar... Ai ai! <3

      Eliminar
  3. gostei muito de seguir os teus dias em sao francisco! acho que estive'mos la' na mesma altura e ontem tb publiquei no meu blog o que vimos por la' (mas muito mais resumido).
    tb me fez impressao os sem abrigo e a quantidade de malucos mas adorei a cidade e tb n me importaria de la' viver! entao numa daquelas casinhas vitorianas de haight ashbury! beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá Sara! :)
      Eu estive lá em Março, será possível que nos tenhamos cruzado?
      É uma cidade mesmo bonita e eu também vivia por lá, mas mais para cima, em Pacific Heights ;)
      Um beijinho para ti e para os teus miúdos*

      Eliminar
  4. Adorei as fotografias!! Estive em "modo viagem".
    Como fazes as sequências nas fotografias em 3?
    É feito em algum programa ou app?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que bom, Nádia! É bom sentir que vos levo a passear comigo também. :)
      As montagens das fotografias são todas feitas em Photoshop, porque é lá que as trato.
      Um beijinho para ti*

      Eliminar
  5. Ai height ashabury, posso morar ai? Eu fico sempre num hotel em pleno distrito de sonoma, so mendigos, alcolicos, toxicodependentes, etc e se nos primeiros minutos fez me confusao, entrei rapidamente na cena e ate ja me sentia parte do bairro. Eles ate pedem a moedinha mas dizes qje nao com um sorriso e eles agradecem na mesma, muito respeitadores e educados. Ainda vimos uns filmes de pessoas a discutir com pessoas invisiveis, uma mulher caida no chao em paranoia e mto mais.
    tambem quero viver em SF! Se tivesse 2000 dolares so pa renda ias ver hehe

    Www.shantifreebird.com

    ResponderEliminar
  6. Raquel,
    Mais um excelente trabalho. Um relato e um retrato excepcionais. De resto, como já é habitual por aqui.
    Viajar, se não for pelos nossos pés, tem de ser, igualmente, com paixão. De outra forma, a mensagem não passa e perde-se informação. O que tu fazes é permitir que outros viagem contigo, sem que saiam do lugar. Mas não te limitas a partilhar um sem fim de fotografias e legendas padronizadas. Vês com entusiasmo para contar, mais tarde, com o mesmo sentimento.
    Continuação.
    Um beijo.

    ResponderEliminar