16/06/2015

[NY] memória fotográfica, ao vivo e a cores

E eis que chegamos ao fim de mais uma viagem, uma daquelas que me preencheu todos os suspiros. Por isso, hoje faço mais uma visita às minhas memórias, às mais doces e coloridas.

O plano podia correr-me mal. Afinal, deixei os últimos dias para as coisas que mais tinha curiosidade de ver em NY: Greenwich Village, a inspiração da maior parte das séries e filmes focados nesta cidade, e o Central Park, o palco dos maiores passeios, das corridas ao início da manhã e ao lado do lado, das declarações de amor-para-sempre. As expectativas eram tão altas que, agora que penso nisso, confesso que me podia ter corrido mal. Se eu não gostasse, a viagem ia acabar numa nota menos positiva. Felizmente, não foi isso que aconteceu. Mas vejam por vocês mesmos, nas próximas linhas que vos conto.

O sexto dia começou, então, com um passeio por Greenwich Village. Em primeiro lugar, vemos que entramos num outro mundo. As casas são mais bonitas e aprumadas, as entradas estão carregadas de flores, o som da cidade ouve-se mais longe e em cada esquina vê-se um café/restaurante familiar, onde as pessoas estão como em casa.





E, de repente, parece que estamos a entrar num cenário dum daqueles filmes ou séries que fazem parte da nossa memória. O prédio da Pretty Woman, onde Richard Gere sobe pelas escadas exteriores com flores na mão, a entrada de Carrie do Sexo e da Cidade (que nitidamente precisava que lhe regassem as plantas), as escadas de How I Met Your Mother, onde o Ted fala com Robin e o Marshall revê a Lily, o café de esquina que inspirou o Central Perk, o lugar onde a Rachel, a Monica, o Chandler, a Phoebe, o Ross e Joey se encontravam em Friends. Para qualquer lado que olhemos, as referências são tantas que, enquanto o sorriso permanece, nem precisamos de falar.



Mas desenganem-se aqueles que acham que Greenwich Village é só o bairro que faz parte das séries e dos filmes. Como uma das mais tradicionais áreas residenciais de Manhattan, foi o berço da Geração Beat, a celebração da não conformidade e da criatividade espontânea, pioneiro do movimento hippie, da luta pela liberação sexual e um ponto histórico da cidade. Hoje, é também o palco da festa de Halloween mais famosa do país, assim como da parada gay de NY.

O sentido de comunidade faz-se sentir nas ruas, que são amplamente frequentadas por estudantes de arte, profissionais independentes, músicos e pessoas que se tratam pelo nome na padaria da esquina. Por isso e apesar de nos sentirmos em plena metrópole, permanece aquela sensação de pertença, num ambiente intimista e familiar.





E, no final do dia, ainda tivemos o privilégio de conversar com uns esquilos que andavam a passear por Washington Square Park.



Nessa noite, tínhamos planeado ir ver os Soulive ao vivo no Brooklyn Bowl, uma casa de concertos muito peculiar, porque tem a vantagem de ser também uma bowling alley. Para quem não os conhece, os Soulive são um trio de jazz/funk que são muito conhecidos nesta categoria pelas suas músicas orelhudas e os solos completos. Todos os anos, estes músicos juntam-se durante 2 semanas e fazem do Brooklyn Bowl a sua sala de estar, convidam amigos para tocar com eles e fazer as delícias do público que os ouve e vê. É uma espécie de jam session combinada com músicos conhecidos e muito bons.

O passo inicial foi dado pela High & Mighty Brass Band, com músicas já habituais da nossa memória e outras originais, representadas por uma tribo de metais, entre eles alguns trompetes, trombones, clarins, fagotes e até uma tuba, sempre acompanhados duma secção rítmica muito interessante. A festa foi garantida, com uma actuação até no centro do público, onde tocaram uma cover da conhecida Wiggle. (podem ver/ouvir o set completo aqui)



Em seguida, foi a vez dos Soulive invadirem o palco, com clássicos como El Ron. Fomos surpreendidos com os convidados, pois decidimos não ver nada até à noite do concerto e só tenho pena de não nos termos sentado muito durante o dia, porque as pernas já quase que não conseguiam aguentar até ao fim do concerto. Dançámos, sorrimos e quase parecia que estávamos a ver uma reunião entre amigos que, ao invés de falarem sobre música, falavam através da música. Foi incrível. - vénias, vénias, vénias.
[destaco a prestação do ENORME Adam Deitch, um dos melhores bateristas que já vi. e agora calo-me que eu sei que pareço uma palerma e ninguém percebe nada destas minhas paixões.]

Como já esperávamos depois desta noite de emoções fortes e dores nos pés, o último dia começou lento e tinha de ser passado assim, com muita calma. Desta forma, deixámos o Central Park para calcorrear neste dia mais preguiçoso.



Dá para perceber: estava muito, muito frio. Os lagos ainda estavam gelados, as árvores despidas e o vento despenteava os distraídos. Mas conseguimos ver a ponte que o Sozinho em Casa atravessou para ver a senhora dos pombos e as pessoas a patinar sobre o gelo. E sentimos o quão especial é este lugar, mesmo quando não é verde na sua totalidade.




Com o tempo que a calma nos exigia, sentámo-nos ao lado do lado a observar as pessoas a passar e sentimos o sol que nos aquecia a cara. Fizemos de turistas, alimentámos esquilos, passámos pelo Strawberry Fields, o memorial do John Lennon e vimos o monumento em homenagem à Alice e o seu País das Maravilhas, que alimenta a imaginação de pequenos e graúdos que por ali passam. E até ouvimos histórias de um senhor que meteu conversa connosco que, enquanto falava da sua cadela, dizia parte dos seus dias. Mais uma vez, sentimo-nos em casa.






Ao final da tarde, passeámos pelas ruas que restam a dar a cara por Little Italy. É mais pequeno do que aquilo que pensávamos, mas mantém-se muito característico na sua história e é a casa da comunidade italiana em NY, com restaurantes típicos e lojas inconfundíveis, pintadas nas cores da bandeira, verde, branco e vermelho.




No meio desta azáfama, o meu sorriso brilhou mais quando vimos uma loja muito convidativa, onde é Natal o ano inteiro! :) [mas descansem, não me deu para perder a cabeça e entrar]

Depois duma conversa boa com uma menina portuguesa que conhecemos por lá, decidimos retirar-nos mais cedo e fazer as malas para casa, que íamos viajar no dia seguinte. Numa retrospectiva final, percebemos o quanto NY foi, sem dúvida, uma surpresa. Uma cidade enorme, com tanto para conhecer e visitar, que nunca ficámos satisfeitos e queríamos sempre mais. Uma cidade cheia de vida e de cores, mas com espaço suficiente para nos fazer sentir bem onde quer que estivéssemos.

E, ainda que se tivesse despedido de nós com muita neve (que não é tão bonita como nos filmes e que nos fez estar no avião uma hora à espera para levantar voo), temos uma certeza: vamos voltar. É que esta é a casa das nossas memórias, ao vivo e a cores.

2 comentários:

  1. também vou a NY este verão :) já lá fui, mas há muito tempo (15 anos!) e totalmente dependente da família para ir aqui e ali, por isso não absorvi muito a cidade (estivemos pouco tempo). este ano conto tirar a barriga de misérias, e ainda fico mais inspirada pelas tuas memórias e fotografias :) parece ter sido uma viagem maravilhosa!

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  2. Raquel,
    Nova Iorque será sempre a cidade que ou conhecemos, ou ambicionamos conhecer, ou ainda, mesmo que não faça parte das nossas preferências, será sempre uma cidade para onde vamos olhar duas vezes. Por tudo aquilo que lhe conhecemos, por tudo aquilo que nem sonhamos.
    As fotografias falam por si, de resto, como já nos habituaste. Compões as excelentes memórias nas fotografias com o relato escrito, e só se valorizam.
    Obrigado pela partilha.
    Um beijo :)

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