01/10/2015

Dia 1 . mon amour

- Gostas de mim?
- Sim.
Não acreditava em ti. Por isso é que estava sempre a perguntar.
- Mas tens a certeza?
- É isso que tens de gaja que mais me irrita. Porque não consegues confiar naquilo que eu digo?
Não sei. Nunca soube. Mas tinha a certeza que os teus olhos queriam ver outras coisas, para além daquilo que eu te mostrava todos os dias. Podias até gostar de mim, mas sabia que havia algo que me escondias.

As quintas-feiras eram sempre um dia especial para nós. Não tínhamos aulas de tarde e era o dia em que apanhavas boleia com o meu pai e vinhas almoçar comigo a minha casa. Depois do almoço e do meu pai sair, ficávamos horas a ouvir os álbuns que a tua mãe nos emprestava, no gira-discos dos meus pais, a olhar profundamente nos olhos um do outro, sem sentir o tempo a passar. Era a nossa ideia de amor verdadeiro. Hoje, penso que tínhamos um amor fora de época, velho, sábio e crescido, vivido no corpo de dois adolescentes.

- Gostas de mim?
- Já te respondi.
- Eu sei, mas agora quero que me respondas a olhar-me nos olhos. Gostas de mim?
- Sim.
Os teus olhos. Diziam coisas que eu nunca tinha ouvido, palavras que eu não sabia existirem. Levavam-me a sítios bonitos, diferentes, misteriosos e tão distantes, a países que só habitavam os nossos sonhos. Quando olhavas para mim, esquecia-me da minha insignificância e sentia-me a única, a pessoa mais importante do teu mundo. Era o meu maior vício, a maneira como olhavas para mim.

Lembro-me bem da nossa tarde mais especial, porque fiquei de castigo durante um mês inteiro. O meu pai gostava da tua presença lá por casa, mas acho que a minha mãe não confiava em ti. Cá entre nós, ela sempre teve razão nas suas escolhas, eu é que fui teimosa demais para lhe dar ouvidos.

Eram dezasseis horas e quarenta e sete minutos quando decidiste que tínhamos de ir dar um passeio até ao parque ao lado da minha casa. Ainda que o tempo estivesse bom, estávamos no início de Fevereiro e o tempo de dia era curto, por isso sabia perfeitamente que já ia voltar para casa de noite e os meus pais iam ficar preocupados quando chegassem a casa e eu não estivesse lá. Mas não havia nada que eu não fizesse por mais um momento contigo, porque sabia que esse sim, era contado. Tinha a certeza que, no dia em que percebesses o quanto estavas a desperdiçar a tua vida ao estares comigo, irias desaparecer sem deixar rasto.

Descemos a rua de mão dada. O sol parecia brindar connosco aquela fuga ao que estava planeado. Apesar de tu adorares fazer coisas diferentes, eu nunca fui muito de sair dos planos habituais. Talvez fosse isso que tu gostavas em mim, uma forma de te organizares e centrares no teu mundo revolucionário. Naquela tarde, a luz estava tão bonita que, pela primeira vez na vida, senti que estava no sítio certo, no lugar exacto, com a pessoa com quem deveria estar.

Chegámos ao parque e imediatamente, sem falarmos, deitámo-nos na relva a ver o céu. As nuvens pintavam-no de cor-de-rosa, com a luz a esbater-se em tons imensuráveis. Os sons começavam a ser mais claros, os pássaros recolhiam-se nos seus afazeres e, lá longe, as pessoas voltavam a casa para fazer o jantar. Não sei quanto tempo passou com a tua mão colada na minha.

- Porque é que gostas de mim?
Estremeceste.
- Não sei. Não penso nessas coisas.
- Mas tem de haver uma razão, somos tão diferentes.
- Como a água e o vinho, já diz a tua mãe.
- Sim, é isso. Porque é que gostas de mim?
- Mon amour, porque és tu. Até chata e desconfiada, é de ti que eu gosto de verdade. Acredita em mim. E ouve o silêncio.
- O silêncio não se ouve.
- Estás enganada. O silêncio tem melodias maravilhosas, conta histórias fantásticas e a reafirma amores. E quando gostamos mesmo de alguém, estamos confortáveis no silêncio. Não é preciso dizer nada, não é preciso fazer nenhuma pergunta. As respostas estão aqui, no silêncio, neste imenso céu azul.

Não precisei de te olhar nos olhos. Naquela tarde, foi a única vez em que acreditei em ti.

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