06/10/2015

Dia 6 . os fantasmas que moram aqui

Tenho ar de carrancudo, eu sei. Gostava de ter o ar de quem vive feliz com a vida que tem, com a tranquilidade de parar e respirar fundo, mas a verdade é que os genes me deram o ar de zangado, de quem não quer nada com a calma e a felicidade.

Podia dizer que foi o caminho que me fez assim. Às vezes é mais fácil dizer que não tive amigos e que não fui feliz, apenas porque encontrei muitas pedras e desafios que me fizeram sisudo e austero. Perante esta frase, as pessoas não fazem perguntas sobre o que se passou, resolvem-se na pena e está tudo bem. É engraçado como isso acontece. Estamos bem perante os problemas dos outros. E há uma explicação natural para o facto de ser carrancudo. Afinal, é normal que uma pessoa que tenha tido desafios seja mais atribulada e carregue um ar mais pesado.

A questão é que não é bem esse o caso. Não tive problemas, simplesmente sou carrancudo. É o meu estado normal. Não tenho histórias mirabolantes sobre separações na minha família, não perdemos nada, tive dinheiro e segurança, e sempre vivi bem, feliz e calmo. O meu caminho foi ameno. Os meus pais sempre gostaram muito um do outro, criaram um exemplo que segui. Estudei aquilo que queria, fui um aluno mediano, tive amigos e conquistei as mulheres que queria. Tive as minhas desilusões, mas nunca achei que iria acabar o Mundo pelo estado do meu coração.

No entanto, quem se depara comigo pela primeira vez pensa mesmo que eu levo o mundo nos ombros e que não sei ser feliz. Ouvi isto muitas vezes, como se fosse mal agradecido por tudo aquilo que tenho. Como se fosse obrigatório agradecer pela sorte que tive. Como se, ao não sorrir todos os dias, deixo de merecer tudo aquilo que a vida me deu. E tantas vezes ouvi estes fantasmas, que eles passaram a habitar por aqui.

Comecei a acreditar que alguma coisa de mal teria de acontecer, para que pudesse valorizar as minhas posses. Todos os passos que dou são meticulosamente pensados, para que consiga evitar que as nuvens me tapem o sol, que apareça uma onda que me impeça de nadar, ou um buraco que me torça um pé. E não acontece nada de mal. E, a cada dia bom que passa, não há nada que me deixe descansado, porque tenho a certeza de um dia algo vai acontecer.

Eu sei que tenho um ar carrancudo, sisudo, carregado e mal-encarado. Em minha defesa, fui sempre tão feliz que estou preparado para os dias maus. Estou preparado para que a vida me passe a perna.

1 comentário:

  1. Obrigada por criar este cantinho de textos maravilhosos que só nos faz querer ler mais e mais! Continue, é simplesmente fantástica. Agradeço-lhe de fundo do meu coração por partilhar com os seus leitores.
    Um enorme beijinho.

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