12/05/2016

Mãe, fui à televisão dizer que não vais ser avó

[4 anos de mim]

Andava aqui há uns dias com as primeiras linhas deste post a pairar na minha cabeça, mas foram dias tão intensos que precisei de tempo para me organizar, arrumar as gavetas e explicar tudo bem direitinho. E aqui estou eu para fazer isso mesmo.

Como vos mostrei no último post que escrevi por aqui, fui entrevistada para o projecto Nascer em Portugal, que se refere a um estudo feito sobre a natalidade no nosso país. O objectivo dessa entrevista foi de mostrar as diferentes perspectivas de diversas pessoas, com opiniões e histórias de vida distintas. Duma certa forma, representei todas as mulheres na minha condição: com 30 anos e sem vontade de ter filhos.

Depois, a entrevista acabou por ser o mote para uma reportagem que foi feita para a TVI, parceira de comunicação neste projecto. O domingo do dia da mãe foi o escolhido para apresentar esta reportagem e, por essa razão e por saber que as mães é que devem ser as protagonistas nestes dias, apareci só uns escassos minutos, a falar sobre mim e sobre a minha escolha.

No entanto, na semana passada fui contactada por uma jornalista da TVI, que me pediu novamente para falar sobre o assunto. Confesso: não queria nada repetir-me, achei que já havia sido dito tudo o que era relevante e não queria ser a única pessoa a ter de mostrar uma escolha que, para mim, era absolutamente natural. Além disso, este é um tema ainda tabu, já que as mulheres na minha situação continuam com medo de se expor e muitas vezes mentem ou fogem das inúmeras respostas que lhes são exigidas. Sim, é verdade, ainda há mulheres que se escondem e mentem, ainda há mulheres que são julgadas em praça pública e ainda existem muitos dedos apontados para aquelas que apenas seguem o caminho dos seus corações. E, por essas razões, desta vez tive um pouco medo de me apresentar em público, na televisão nacional e generalista, para falar dum assunto que é tão próprio e pessoal.

De facto, não acho que essa não decisão de ter filhos seja uma coisa que me define na totalidade, pois, para além de ter tido sempre uma relação pessoal e profissional muito próxima com crianças, há muitas coisas que sou para além disso. Enquanto psicóloga ligada à área infantil, sei que sempre fui a melhor das profissionais, com uma ligação muito especial com todas as crianças que passaram por mim. Também sou a melhor das amigas, a mais doce das tias, presente e dedicada como sempre. Por isso, quando a jornalista insistiu e referiu a pertinência de voltar neste assunto apenas para mostrar a minha história, o lado feliz e o meu amor pelo mundo dos pequeninos, cedi e aceitei o convite.

Foi assim que na última terça-feira dei por mim nos estúdios da TVI em Lisboa, bem penteada e maquilhada, com o carinho e o empenho do meu pai, a força e o sorriso da minha mãe, em conversa com a Fátima Lopes. Foi lá que contei um bocadinho da minha história, dos meus medos e um pedaço daquilo que me faz ser quem sou, tão feliz como pareço ser. E aqui fica o vídeo da minha participação (ver a partir dos 54 minutos):

http://tviplayer.iol.pt/programa/a-tarde-e-sua/53c6b3883004dc006243ce59/video/573223f80cf209b36b78961c

Se calhar já estão fartos de me ouvir falar da sorte que tenho, mas eu nunca me cansarei de repetir: tenho mesmo muita sorte. Nasci na melhor das famílias, fui e sou muito amada, amei e amo perdidamente os meus pais. Tive e tenho os melhores amigos como companhia, e a minha admiração por eles é infinita. Encontrei o Pedro, o marido mais doce, a minha outra parte. E juntos, fizemos planos a dois, criámos a nossa família, que combina estes elementos todos num abraço só.

Tenho mesmo muita sorte. É exactamente por causa da sorte que tenho que hoje tenho o sorriso mais arrebatado, mais repleto e farto, mais cheio. E talvez seja por isso que não sinta necessidade de ter outra pessoa pequenina que me complete, não sei. A verdade é que não a sinto e não deveria ser condenada por isso. Talvez um dia mude de ideias e tenha essa vontade, também não sei, ainda não consigo prever o futuro.

Mas há uma coisa que posso garantir no presente: não me falta nada. Aqui, está tudo muito bem arrumado e seguro. Aqui, sou mesmo muito feliz. :)

P.S. Adorei a experiência e foi muito bom conhecer a Fátima Lopes e toda a produção por detrás do programa. Estava muito nervosa, o meu corpo tremia como varas verdes, mas depois de ver para trás, repetia sem pensar duas vezes. :)

3 comentários:

  1. Vi a reportagem da TVI e adorei. Cada um é livre de escolher o que quer para a sua vida e acho triste quem aponta o dedo.

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  2. Realmente cada um sabe o que e' melhor para si (e cada casal para a sua relacao) e ningue'm tem que opinar ou julgar! E cada historia e' tao pessoal! Obrigada por partilhares a tua. Eu nunca tive paciencia para criancas e n queria ter filhos ate que de repente quis e tem sido uma aventura incrivel e estou muito feliz por isso. E tambem era muito feliz antes, n me faltava nada, nem precisava de ninguem que me completasse! E' como a me'dica disse na TVI, 'e um complemento, nao para completar. Beijinhos Raquel e tudo de bom!

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  3. Raquel,
    Não encontro qualquer precipitação no teu discurso. Tampouco incómodo. Pelo contrário, vejo maturidade. Só assim se compreende a tua postura. E, com propriedade, passas a tua experiência.
    A forma irregular como se afrontam algumas mulheres que optam pela verdade acompanha a intolerância, nada parca, da sociedade em aceitar o oposto.
    Bem perto de mim, conheço quem viva por inteiro e faça escolhas sinceras. Não é fácil, sequer para quem assiste à insistência e persistência dos outros. Não há volta a dar, ser-se é bem mais trabalhoso do que parecer-se. E, bem sabemos, os últimos existem em grande escala.

    Um beijo.
    E continua na defesa do que és e das tuas convicções. Seja na tua rua, seja numa conversa em televisão. Que, no fundo, apenas te oferece decibéis. :)

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